Cristiano Kok

Membro do Conselho Diretor do Sinaenco e sócio da Engevix Engenharia

Primeiro presidente do Sinaenco e um de seus criadores, o empresário Cristiano Kok é sócio e presidente da Engevix Engenharia, onde iniciou sua trajetória como engenheiro de projetos em 1972. Formado em Engenharia Industrial pela Universidade Mackenzie, em 1968, Kok foi superintendente de Água e Esgotos da Capital na antiga SAEC, atual Sabesp – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, entre 1971 e 1973, e trabalhou na Asplan S.A. 1968/1971. Cristiano Kok também foi professor da escola de Engenharia da Universidade Mackenzie e da Fundação Armando Álvares Penteado, ambas em São Paulo, além de presidente da Abemi – Associação Brasileira de Engenharia Industrial, entre 1999 e 2004. Em 2002, foi eleito Personalidade da Tecnologia pelo Sindicato dos Engenheiros de São Paulo e, em 1994, Personalidade do Ano de Engenharia Consultiva, com o prêmio concedido pelo Sinaenco.

O que motivou a criação do Sinaenco, em 1988?

O setor de projetos era filiado ao Sindicato de Avaliações e Perícias e Agentes Autônomos do Comércio, que nada tinha a ver com a nossa atividade. E algumas empresas de engenharia consultiva se filiavam ao Sinduscon, que é o sindicato das construtoras. Depois da promulgação da Constituição de 1988, que criou a liberdade sindical, sem atrelamento ao Ministério do Trabalho, pensamos em ter um sindicato que realmente nos representasse. Surgiu daí o Sinaenco. Fui um dos fundadores, tive um mandato provisório e fui eleito mais duas vezes. Ou seja, fui presidente da entidade por seis anos.

As empresas enfrentavam graves problemas ao negociar acordos coletivos por causa dos diferentes índices de reajuste de salários. Nós procuramos criar um conjunto de regras para homogeneizar os acordos.


Quais eram as dificuldades do setor de engenharia consultiva na época?

As empresas enfrentavam graves problemas ao negociar acordos coletivos com sindicatos de trabalhadores por causa dos diferentes índices de reajuste de salários. Nós procuramos criar um conjunto de regras para homogeneizar os acordos, pois as empresas concediam diferentes benefícios, número de horas de trabalho, assistência médica, vale-refeição etc. Isso atrapalhava a competitividade. Mas, ao longo dos primeiros 10 anos, conseguimos equalizar os benefícios em todas as empresas do país.

Como ocorreu a entrada do setor de arquitetura no Sinaenco?

Os escritórios de arquitetura também perceberam que não tinham uma representação compatível com sua atuação. Havia o sindicato dos arquitetos, mas este era voltado aos arquitetos autônomos. Em 1990, a Asbea nos procurou para fazer parte do sindicato, que passou a se chamar Sinaenco, com o ‘a’ de arquitetura. Criamos diretorias para os novos integrantes do segmento de arquitetura e foi uma união muito interessante, pois é muito fácil entender as atividades da engenharia consultiva pela arquitetura, pois todos sabem o que é um projeto. A partir disso criamos a campanha em prol da valorização do bom projeto.

Na época de fundação do Sinaenco a economia brasileira passava por uma fase bem complicada. Como foi possível enfrentar aquele momento?

O período foi muito complicado. Era a época dos planos econômicos, hiperinflação e desemprego, com consequências muito ruins para os trabalhadores do setor. Sempre tivemos uma relação muito boa com o Sindicato dos Engenheiros de São Paulo e assim, o Sinaenco trabalhou muito para defender o conjunto de interesses das empresas, com negociação justas com trabalhadores e condições de trabalho uniformes, definição de pisos de categoria, salário mínimo profissional, o que criou uma estrutura para dar tranquilidade ao funcionamento das empresas e das relações entre patrões e empregados. Apesar de a época ter sido anticíclica, com crises de demissão, quando a economia melhorou o balanço foi positivo. Esses primeiros anos do sindicato foram muito difíceis pegamos tablita*, redução de salários, atrasos de pagamento, desemprego. O sindicato foi importante para orientar os empresários a lidar com essas inúmeras situações conflituosas.

Tivemos uma época dos anos 1970 aos 1980 de enormes investimentos públicos no setor de infraestrutura.

Foram investimentos pesados em geração de energia, em que o país construiu simultaneamente Angra 1, Itaipu e Tucuruí, usinas de porte.

Vamos voltar no tempo: o chamado milagre brasileiro foi mesmo uma época de ouro para a engenharia consultiva?

Tivemos uma época dos anos 1970 aos 1980 de enormes investimentos públicos no setor de infraestrutura. Foram investimentos pesados em geração de energia, em que o país construiu simultaneamente Angra 1, Itaipu e Tucuruí, usinas de porte. Também tiveram início os projetos do metrô de São Paulo e do Rio, e todo o sistema de melhoria de trens metropolitanos, em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife, entre outras obras. Tudo isso num período de 10 a 15 anos. Além disso, tivemos todo plano rodoviário das BRs, nacional, a implantação do sistema de telecomunicações brasileiro com a Embratel , comunicação por satélite etc. Nessa época, a forma de contratar engenharia era outra, basicamente por notória especialização e não havia processo de concorrência. Essas empresas fechavam contratos, montavam equipes capacitadas e recebiam por homem/hora. Era um salário com carteira assinada, com pagamento de encargos e taxa de administração. Isso gerou, por um lado, um desenvolvimento de tecnologia, capacitação de pessoal e formação de quadros, mas, por outro, uma enorme ineficiência, porque a produtividade era baixa.

O que aconteceu com a chegada da informática no setor?

Ocorreu uma mudança tecnológica fundamental, com o uso da informática e dos computadores, primeiro como auxiliar nos cálculos e, depois, como auxiliar no desenho. A forma de precificar a engenharia mudou e todo o processo de produção da engenharia também. Numa época de queda de investimentos e pouco trabalho as empresas tiveram de fazer grandes investimentos em informática. Houve uma mudança de tecnologia e de forma de contratação. Veio então a Lei de Licitações (8666), que foi correta no sentido global, e que prevê que os trabalhos de engenharia devem ser contratados por técnica e preço. Mas os contratantes começaram a ficar com medo de contratar dessa forma e optaram pelo menor preço. Isso foi um desastre.

Por que foi um desastre?

A qualidade dos projetos sofreu uma queda, o que equivale a dizer que as obras também. Hoje estamos numa situação em que o contratante não sabe mais contratar engenharia de qualidade. Ele teria que começar primeiro pela contratação de projetos adequados, bem detalhados, e na etapa de construção trabalhar com o menor preço. Na verdade, esse processo resultou num sistema que privilegia a contratação de engenharia por preços vis, resultando em obras de péssima qualidade.

A engenharia consultiva é a partitura da orquestra, é ela que define as atribuições de cada participante nos projetos.

A engenharia consultiva é a inteligência do setor de construção?

Sim, quanto a isso não há dúvida. A engenharia consultiva é a partitura da orquestra, é ela que define as atribuições de cada participante nos projetos. Hoje, o que falta no Brasil é planejamento para prever o que se irá construir, a engenharia e depois licitar e construir. Infelizmente no país é tudo acontece ao contrário. O que se vê hoje é contratar pelo menor preço para na ponta final ficar mais caro. Se não há um bom projeto na hora de contratar quem executa faz e cobra o que quer.

Quanto à infraestrutura, quais são os principais gargalos que precisam ser resolvidos?

É preciso olhar para cada ponto em questão. Acredito que deve haver concessão ao setor privado porque ele opera com mais eficiência e não tem as restrições da licitação. Um processo semelhante deve ocorrer com os portos.

A área de energia vinha num processo interessante e conseguimos expandir nossa matriz energética. Mas vamos ficar sem solução por causa das questões ambientais em relação aos grandes reservatórios. Quando a usina é construída sem reservatório, ou com reservatório mínimo, operam três meses a pleno mais e nos outros períodos gerando menos. Com isso, é necessário complementar com as usinas térmicas, que caem em outro problema, pois não temos óleo suficiente, nem gás, e nosso carvão não é bom. Necessariamente vamos cair para a geração nuclear, mas que também é criticada por ambientalistas. Construir hidrelétricas na Amazônia não significa que vamos destruir matas. Podemos usar os royalties para combater o desmatamento. O potencial hidrelétrico brasileiro é enorme, mas vamos ter que optar por matrizes muito mais sujas, ou então para a energia nuclear.

Essa equação não está resolvida e infelizmente, no Brasil se criam restrições por questões que poderiam ser equacionadas e bem resolvidas. Sem falar das questões de saneamento e do lixo, duas grandes tragédias nacionais. O transporte urbano, que talvez seja o maior problema a ser enfrentado nas grandes cidades, não será resolvido apenas com corredores de ônibus. Só com investimentos pesados em metrô, trens etc. Então há muito a ser feito, mas muito pouco planejamento e estudos.

Notas:
*Tablita era o nome popular da tabela resultante do congelamento dos preços, uma das medidas instituídas pelo fracassado Plano Cruzado
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