Roberto de Araújo Pereira

Membro do Conselho Diretor do Sinaenco e diretor da Vetec Engenharia

Segundo presidente nacional do Sinaenco, Roberto de Araujo Pereira, formado em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia São Paulo, em 1982, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (1983). Sua experiência está estruturada em 30 anos de desenvolvimento profissional na área de transportes. Até 1984, atuou no Ministério de Minas e Energia, tendo participado de inúmeros projetos de infraestrutura. É diretor da Vetec, desde 1985, onde coordenou a implantação de empreendimentos como o Rodoanel Mário Covas; Linhas 2, 5 e 6 do Metrô de São Paulo; Ferrovia do Aço; Programa de Recuperação das Estradas do Estado de São Paulo (BID); Programa de Recuperação das Estradas do Estado do Pará (BID); Programa de Concessões Rodoviárias do Governo Federal (BNDES); Programa de Concessões Rodoviárias do Estado de São Paulo; VLT Baixada Santista; Metrô de São Paulo; Transcorr; Ferrovia de Integração Oeste/Leste; Contratos de Apoio à Fiscalização de Concessionárias Rodoviárias, para a Artesp; Apoio à operação da malha rodoviária do DER/SP; Estudos de Viabilidade Técnica e Econômica do Rodoanel Mário Covas; e Programa de Exploração do Sistema de Integração do Leste Paraense.

Em que época o sr. assumiu a presidência nacional do Sinaenco?

Eu fui o segundo presidente nacional do Sinaenco, depois da gestão do Cristiano Kok. E enquanto ele estava na presidência nacional, eu fui presidente do Sinaenco São Paulo de 1991 a 1993. O Cristiano ficou até 1993, e eu assumi a direção nacional de 1994 a 1996. Na minha diretoria, estavam o Cyro Laurenza e a Norma Gebran Pereira, que me sucedeu. O Cristiano Kok idealizou o Sinaenco e colocou a ideia no papel. E nós fomos a campo para começar a estruturar o Sinaenco, trazer novos associados e empresas representativas. Naquela época, muitas das nossas empresas eram filiadas ao Sinduscon, que era um sindicato mais voltado aos construtores e que, portanto, não nos representava. Então, nosso trabalho foi o de trazer essas empresas para o Sinaenco.

Quando fui eleito para a presidência nacional, levei a mesma diretoria que estava comigo na regional São Paulo. Nessa fase tínhamos a preocupação de conhecer as empresas de diversas regiões do país. Por isso, nossa ênfase estava em promover uma integração entre os diversos empresários do nosso setor. Então, foi nessa época que tivemos a ideia de criar o Enaenco, Encontro Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva, que era uma forma de os empresários criarem um elo mais forte e mais íntimo entre eles e se conhecerem. E isso foi muito bom. Hoje o encontro se transformou em uma palestra de duas horas. Mas, naquela época, o evento durava quatro dias, com dois dias dedicados a palestras e debates outros dois dias para integração entre os participantes. O Enaenco era sempre realizado em diferentes regionais do Sinaenco nas várias regiões do país, e conseguia reunir até 150 empresários. Nesses encontros também levávamos autoridades federais, estaduais e municipais, além de personalidades de destaque para discutir temas importantes do momento. Era um congresso para empresários.

Demorou um tempo até o Sinaenco ser compreendido como entidade do setor de engenharia e arquitetura consultiva. Na verdade, éramos tratados como empreiteiros.

 Nesse início, como aconteceu a consolidação do Sinaenco?

No começo foi bem complicado, pois demorou um tempo até o Sinaenco ser compreendido como entidade do setor de engenharia e arquitetura consultiva. Na verdade, éramos tratados como empreiteiros. Recorremos ao professor Amaury Mascaro, grande advogado trabalhista da época, que conseguiu a nossa carta de autorização, para que pudéssemos nos separar do Sinduscon. Na minha gestão, quando eram frequentes os embates com os sindicatos dos trabalhadores, por causa da inflação e reajustes salariais, sempre tínhamos problemas com greves de funcionários. A solução para isso foi criamos um parâmetro para os reajustes, e foi escolhido então o INPC. Dessa maneira, colocamos ordem nessa questão, a fim de evitar aquele vai e volta dos dissídios, que duravam meses e desgastavam as relações entre empresas e seus funcionários. Com isso, depois que assumi, praticamente não tivemos mais dissídio, que deram lugar aos acordos em torno do INPC. Quando a época está ruim para as empresas, dávamos aumento baseado na variação do INPC. E quando a economia estava melhor, dávamos o INPC mais uma porcentagem.

O que aconteceu quando foi criada a Lei 8666, em 1993, durante sua gestão?

Nessa época, tivemos uma participação importante no sentido de mostrar a diferença entre a engenharia consultiva e as atividades de construção. Era necessário fazer isso, pois o Decreto Lei 2.300, de 1986, também nos tratava como empreiteiros. Dessa maneira, empreendemos mais uma luta para ter uma lei de licitações que colocasse a técnica, ou técnica e preço, como critério para contratação de empresas do nosso setor. Foi uma batalha muito grande, mas conseguimos ter apoio do Congresso. Na época, o Sinduscon defendia apenas o critério do menor preço e nós brigávamos para que fosse técnica e preço, e os congressistas entenderam claramente isso. Isso deixou bem clara a diferença existente entre os dois setores. Em São Paulo conseguimos um projeto estadual que proíbe o menor preço para os serviços de engenharia consultiva. Essa foi uma grande conquista, a primeira vez que se separava por lei as duas atividades.

Quais as outras conquistas da sua gestão?

Outra grande conquista da minha gestão foi a compra da sede própria do Sinaenco, no centro, onde estamos até hoje. Compramos o imóvel do Grupo Rossi e isso pode ser efetivado por causa da baixa da inflação. Antes, não conseguíamos porque nunca sobravam recursos. A Cristina, na época, era minha assessora de imprensa, pois tem formação em jornalismo, e me lembro que sempre que fazíamos qualquer viagem pagávamos com dinheiro do nosso bolso, porque o caixa era pequeno, e tudo era muito enxuto. Nessa fase, também já estavam conosco o Rolim e a Ana. Era uma equipe muito enxuta, mas muito ativa, bacana, com uma união muito grande. Todos trabalhavam muito, isso foi o embrião do Sinaenco e essa equipe está lá até hoje. Mas depois do Plano Real, com a estabilização da economia, conseguimos economizar um dinheiro e foi a oportunidade para comprar a sede.

A implantação do Plano Real trouxe grandes mudanças na economia. Como foi essa fase de transição para o Sinaenco?

Para nós foi muito boa porque a queda da inflação significou um período muito favorável. Trabalhar com inflação é um horror. Foi uma época excelente para nosso setor, pois também foi instituída a Lei de Responsabilidade fiscal, do governo FHC, que garantiu para a gente uma redução nos calotes, que era muito comum antes. O Mário Covas, governador de São Paulo nessa fase, também foi um grande aliado nosso, até porque ele era engenheiro da área de consultoria, então entendia bem nossos pleitos. Ele nos apoiou primeiro como senador, com a Lei de Licitações e, depois, como governador. Sempre nos recebia, discutia todos os assuntos, era um grande parceiro.

Houve dificuldade de adaptação das empresas, por causa do fim da ciranda financeira? Que orientação foi dada aos afiliados do Sinaenco?

Tudo o que vem para melhorar o cenário dos negócios, faz com que a adaptação seja rápida. Eu me lembro que na mesma hora percebemos as vantagens da estabilização. Depois, não acreditávamos como havíamos sobrevivido antes. Quando uma pessoa muda para uma casa maior, ou compra um carro melhor, não sente falta nenhuma de como era antes. E passado um ano era difícil até lembrarmos de como era na época da hiperinflação. Aquilo era irracional!

Houve melhoria no desempenho econômico das empresas?

Nessa época a engenharia consultiva teve um início de recuperação, após a década perdida. Começava a se desenhar uma melhor organização da economia. Então, foi uma fase em que surgiram muitas empresas novas no setor. As antigas, tradicionais, tiveram um baque muito forte. E aí começou a aparecer uma nova geração de empresas que nem havia vivenciado a época do Brasil Grande. É o caso da Vetec, empresa que dirijo, que completa 30 anos, e não viveu isso, a época boa. Em 1983, eu e mais dois sócios perdemos o emprego na Figueiredo Ferraz, onde trabalhávamos. Foi uma luta incrível montar uma empresa em plena década perdida. Mas, ano após ano, fomos vencendo os desafios e hoje temos uma forte atuação em transportes, com rodovias e ferrovias, que era a nossa área quando trabalhávamos na Figueiredo Ferraz.

Num primeiro momento, as privatizações rodoviárias não foram boas para as empresas. Isso porque o concessionário era um contratante novo, que não conhecíamos, inexperiente e contratou muito mal.

Por falar em rodovias, gostaria que o sr. comentasse o que mudou para o setor de consultoria quando vieram as concessões rodoviárias?

Num primeiro momento, as privatizações rodoviárias não foram boas para nós. Isso porque o concessionário era um contratante novo, que não conhecíamos, inexperiente e contratou muito mal. E todas as empresas da nossa área trabalharam com eles tiveram muito prejuízo. Tanto que, depois disso, passaram a trabalhar com eles apenas os pequenos escritórios, pois eles não sabem dar valor a um projeto bem feito. Por isso, o cliente público ainda é melhor do que o privado. Quando tiveram início as privatizações, tínhamos uma esperança muito grande que a situação fosse melhorar. Mas, acontece que as concessões caíram na mão dos empreiteiros, que têm a característica de pensar de maneira muito limitada. O ideal para nós seria que entrassem nesse mercado grandes bancos, grandes empresas.

Os empreiteiros não enxergam que um bom projeto pode reduzir os custos e aumentar os lucros, ao longo do tempo de concessão?

Estão percebendo isso só agora. E estão começando a contratar melhor. Tudo o que é novo é complicado. Você vê que hoje ainda pagamos o preço de ter vivido na ditadura, porque acabamos aprendendo a não participar de nada, a não exigir dos governantes. Antes, os estudantes eram o foco das mudanças, e hoje os centros acadêmicos não querem saber de política. Por isso, achei muito interessante, este ano, as movimentações nas ruas. Foi uma forma de retomar essa capacidade de “cobrança”. Foi muito bonito. Acredito que os jovens precisam estar na política. Quero votar em vereadores jovens, com 25 anos, e não nesses que sempre se reelegem. Precisamos renovar a política. Nas eleições é um desânimo, e nos perguntamos: de novo, os mesmos? Quando tem algum jovem ele é filho ou neto do politico. Mas tenho esperança que isso vá mudar. Chegou a hora de uma reforma política. Alcançamos o auge do absurdo. O ideal seria a reestruturação dos partidos políticos.

Em termos de obras de infraestrutura, as ferrovias podem deslanchar?

Sim, com a privatização, as ferrovias podem crescer. O poder público não pode querer interferir no negócio. Cabe ao governo se limitar à saúde, educação e segurança. E o resto deixa a iniciativa privada fazer. Tem setores em que o transporte ferroviário vale mais a pena, como cargas a granel. Por isso, é preciso planejar e decidir fazer na hora certa, sem precisar de caixa do governo, cobrando o valor do frete do usuário, baseado em uma tarifa justa. Somente assim, as obras irão andar. Depois de 30 anos sem privatizar, o que estamos vendo em relação aos aeroportos é incrível. As empresas que assumiram já conseguiram grandes melhorias em pouco tempo, não tem comparação. E isso vai longe, não tem volta. Isso deverá acontecer também com as rodovias, metrô, e todos os tipos de transporte. Se for mantido esse ritmo no metrô, por exemplo, em 12 anos São Paulo terá uma malha boa. Todos os outros países que hoje têm seu sistema de transportes resolvidos passaram por isso. Tiveram de planejar, cair na real e ir em frente. Com gente preparada, o Brasil vai para o primeiro mundo.