21 setembro 2016

Centro Paraolímpico une tecnologia, acessibilidade e esporte

Centro de treinamento localizado em São Paulo está equipado para receber 15 modalidades esportivas. Todo o acesso no prédio principal é feito por meio de rampas e elevadores.

Uma rampa circular no centro do terreno de 145 mil m² resume o pensamento do arquiteto Lauro Miquelin ao projetar o Centro Paraolímpico Brasileiro, em São Paulo, localizado às margens da Rodovia Imigrantes e vizinho do Parque das Águas. Sócio do escritório L+M Gets, Lauro é responsável por uma das obras mais importantes do mundo no que diz respeito à integração entre tecnologia, engenharia, arquitetura, acessibilidade e esporte.

Fruto de uma parceria entre o Governo do Estado de São Paulo e o Governo Federal, o Centro Paraolímpico teve suas obras iniciadas em dezembro de 2013, a partir de um investimento de no valor de R$ 264,7 milhões para obras – sendo R$ 145 milhões do governo federal e R$ 119,7 milhões do governo estadual – e outros R$ 24 milhões para equipamentos (R$ 20 milhões federais e R$ 4 milhões estaduais). Com uma área construída de 90 mil m², o espaço foi dividido em cinco setores, todos interligados por rampas, aptos a receber 15 modalidades paraolímpicas: atletismo, basquete em cadeira de rodas, bocha, esgrima em cadeira de rodas, futebol de 5, futebol de 7, goalball, halterofilismo, judô, natação, rúgbi em cadeira de rodas, tênis de mesa, tênis em cadeira de rodas, triatlo e voleibol sentado.

O primeiro setor é destinado à recepção principal, um estacionamento com 380 vagas disponíveis e quadras de tênis em cadeiras de roda. No setor 2, os atletas poderão encontrar um espaço dedicado ao vôlei, basquete, rúgbi e futebol de 5. No setor 3 está a piscina. O local, aliás, apresenta uma série de inovações no conceito de treinamento e competição paraolímpica. Fornecidas pela Myrtha Pools, empresa italiana fundada na década de 60, a piscina, com tamanho de 52m x 25m x 3m, é formada com peças pré-moldadas em aço inox e manta PVC, estrutura utilizada nos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres.

O setor 4 tem o ginásio para a prática do judô, esgrima, bocha, goalboall, tênis de mesa, com doze mesas no local, e futebol de 7. No 5º e último ambiente, está o centro de pesquisa e medicina do esporte, área fitness e uma pista de atletismo outdoor, que busca a certificação da classe 1 na Federação Internacional de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês).  O Centro também conta com vestiários, dormitórios, restaurantes, cozinha, copa e áreas de convivência, para os quase 300 atletas que passarão por lá na preparação para os Jogos Paralímpicos do ano que vem, no Rio de Janeiro.

Unir toda a estrutura do Centro de maneira equilibrada e satisfatória, para um público com mobilidade reduzida, foi um dos principais desafios no projeto desenvolvido pela L+M. Lauro Miquelin afirma que o resultado final mostra que o projeto inicial respondeu às expectativas.

“Ninguém precisa usar a escada se não quiser. Se você utiliza cadeiras de rodas ou for um pedestre, você pode acessar todos os pontos sem subir ou descer um degrau sequer. E esse é a grande sacada: não depender de escadas. A presença da rampa é um ‘depoimento’. A rampa central, vista de longe, está em helicoidal. Você pode ir passeando pelo prédio através dela”, afirma Lauro Miquelin.

O ‘depoimento’ citado por Lauro na concepção do Centro Paraolímpico é fruto de um estudo aprofundado, aliado à sensibilidade em atender as especificidades das pessoas com mobilidade reduzida em um local tão amplo e com tantas vias de acesso.

“Qualquer boa arquitetura parte do propósito do estudo sobre o ser humano. Como fazer isso? Entendendo o propósito de superação desses atletas e entendendo os requisitos técnicos, como raias de uma piscina paraolímpica, o tipo de revestimento para quadra do futebol de 7. Quando você entende esses conceitos, essas diferenças, você transforma o que nós chamamos de restrição, para uma plataforma impressionante de superação.”

Tecnologia: mais um aliado da acessibilidade
Áreas de captação de água da chuva, paredes verdes. A proximidade do Centro com o Parque Fontes do Ipiranga, por exemplo, trouxe uma responsabilidade a mais: a integrar o espaço esportivo à natureza existente. As paredes verdes servem para diminuir o calor e aumentar a umidade do ar. Placas de captação da luz solar também foram incluídas no empreendimento: grande parte da água quente que será utilizada nos vestiários será proveniente do aquecimento solar. Além disso, a face oeste do edifício tem fachada ‘ameboide’. O formato ajuda a atenuar a incidência de calor, diminuir o barulho viário no entorno das quadras e ainda serve como referência sobre o Centro Paraolímpico. A cor alaranjada da fachada foi inspirada em uma mescla de tons alusivas ao dourado da medalha de ouro, ao avermelhado, da medalha de bronze

Outro setor importante do Centro Paraolímpico tem chamado a atenção de atletas e dirigentes de federações: a área tecnológica. Com mais de 20 de laboratórios, o espaço promete se tornar uma nova referência entre os complexos esportivos da América Latina. Espaços dedicados para treinamento de força, recuperação física e ciência do esporte receberam uma atenção especial. Tratamentos com hidroterapia também realizados em uma sala com quatro banheiras hidroginástica.

“Nós fizemos um estudo com o pessoal da Secretária e Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo para saber o propósito do Centro. Como colocar à disposição do para-atleta a questão da tecnologia, no âmbito do alto desempenho, ao mesmo tempo do treinamento e do suporte para o esporte em alta qualidade? Aí entra nossa expertise de saúde, porque a competição é feita por pessoas que precisam se superar”, ressalta Lauro Miquelin, que credita à tecnologia agregada ao projeto coloca o Centro Paraolímpico Brasileiro como um dos melhores do planeta.

“Saúde, qualidade de vida, bem-estar e alto desempenho dão tom no Centro de Treinamento. Se não seria só mais um centro de treinamento para paratletas ou atletas olímpicos. Esse é o único Centro com esses laboratórios para o atleta paraolímpico ter condições de atender e aferir o seu desempenho e como ele vai se superar”, conclui Lauro Miquelin.