21 setembro 2016

Parque de Madureira: a mais nova e mais frequentada área verde do Rio

Implantando na zona norte da capital fluminense, parque terá quase 420 mil metros quadrados após segunda fase de obras.

Sede da Olimpíada 2016, o Rio de Janeiro espalhou atrações temáticas sobre os jogos em vários pontos da cidade. Um dos locais mais visitados é o Boulevard Olímpico, uma instalação com o logotipo dos Jogos, uma réplica da tocha olímpica para fotos e um telão com exibição permanente das competições. Simbólico de uma tentativa de inclusão da população mais pobre ao evento esportivo, o espaço fica no Parque Madureira, Zona Norte, a mais nova e mais frequentada área verde da cidade.

O parque foi inaugurado em 2012, mas as primeiras propostas de construção do equipamento de lazer já contavam três décadas. Madureira é um dos bairros mais antigos da zona norte do Rio de Janeiro. A região começou a ser urbanizada no início do século 20 e se tornou uma das áreas mais adensadas do país. Seu índice de urbanização atinge 99,93%, bem acima da média carioca, hoje em torno de 70%. Na prática, isso significa que Madureira (e toda a zona norte) tinha um índice muito baixo de áreas verdes: menos de 1 m2 por habitante.

Assim, a proposta de uma área verde para a região já estava nos planos do município desde 1982, mas a ideia somente saiu do papel com a liberação de uma faixa ocupada por uma concessionária de energia e uma ferrovia, lembra o coordenador do projeto, engenheiro Mauro Chagas Bonelli, da Secretaria Municipal de Obras da Prefeitura do Rio de Janeiro: “Tivemos que ‘criar’ um terreno. Conseguimos negociar a compactação da linha de transmissão com a Light e a cessão de terrenos ocupados pela faixa dos trens urbanos da Supervia. Assim, conquistamos a área para a implantação do parque”.

Desta forma, a cidade ganhou uma faixa com 1.300 metros de extensão e área de quase 110 mil metros quadrados. Mas, antes foi necessária a remoção de algumas habitações irregulares e a realocação dos moradores em um conjunto habitacional nas proximidades. E mais: como os terrenos (e um córrego existente) recebiam esgotos clandestinos e a deposição irregular de resíduos, foi necessário trocar o solo, em escavações que atingiram até 4 metros de profundidade, explicou Bonelli.

As primeiras ações para o parque coincidiram com a aprovação do Plano Diretor Ambiental do Rio de Janeiro (Lei Complementar 111/2011) e assim o engenheiro Bonelli teve que adaptar o programa da obra à nova legislação. Surgiram daí alguns conceitos importantes: o parque deveria contar com sistemas de reciclagem e aproveitamento da água da chuva, pontos de apoio para gestão de resíduos sólidos e geração de energia solar. E pisos drenantes, capazes de conduzir parte da água da chuva para subsolo. Além dos ingredientes para a adequação ambiental, a proposta deveria contemplar atividades de lazer, saúde, educação, cultura e melhoria da vida no meio urbano.

Recuperação da paisagem
Em 2010, por meio de convite da Prefeitura, entrou em cena o escritório de arquitetura RRA, liderado pelo arquiteto Ruy Rezende, que procurou compreender a região de implantação do futuro parque, estudar a cultura local e elaborar um projeto capaz de requalificar o espaço urbano à sua volta. “Encontramos uma região com alto percentual de impermeabilização, com temperaturas muito altas e cuja paisagem foi radicalmente transformada pela ocupação urbana. Uma das premissas do parque é a recuperação dessa paisagem, de forma a tornar o ambiente menos agressivo, mais humano e acolhedor”, afirma Ruy Rezende.

Dessas constatações nasceu um “masterplan” com equipamentos para atender às atividades de Lazer (24%), Cultura (20%), Meio Ambiente (28%) e Esporte (28%). Na extremidade sul foi criada a Praça do Samba, um auditório ao ar livre dotado de elegante cobertura construída em concreto para abrigar apresentações artísticas e atividades das duas agremiações conhecidas nacionalmente, as escolas de samba Portela e Império Serrano. Ao lado, estão praça de alimentação e um quiosque para ciclistas, com paraciclos e um ponto do sistema Bike Rio, de bicicletas compartilhadas, o único na zona norte da cidade.

A chamada Nave da Cultura é um misto de biblioteca, videoteca, cinema e centro de acesso a computadores. O edifício foi implantado em meio ao “Jardim Sensorial”, espaço paisagístico voltado a pessoas com deficiências, para estimular o tato e o olfato. É também local para atividades de educação ambiental.

Lagos artificiais
Para sanear o problema da baixa umidade, o projeto implantou uma sequência de espelhos de água, que – com o calor típico do Rio de Janeiro – se tornou um dos pontos mais visitados do parque. Seguindo o passeio, o visitante chega a uma cascata artificial, local de banhos e brincadeiras das crianças. Na parte inferior da queda d’água, o parque ostenta uma combinação de pisos com placas de concreto e areia, a chamada “Praia de Madureira”.

Mais adiante, o parque tem um centro de educação ambiental, uma edificação construída com alvenaria estrutural, mas revestida com uma parede vegetal, que protege contra a insolação exagerada e aponta uma alternativa interessante para outros edifícios do bairro. Na cobertura, placas de energia fotovoltaica geram parte da energia consumida pelo parque. Os jardins suspensos, assim como toda a cobertura vegetal são irrigados por um sistema automático, acionado por meio de uma pequena central meteorológica instalada na edificação, com expressiva economia de água, explica Ruy Rezende.

Outro ponto de destaque é a pista de skate, um complexo de rampas com 3.850 m2 de área, que tem recebido esportistas de todo o país e já é considerada uma das melhores pistas brasileiras. “Centenas de pessoas reúnem-se nessa área para praticar o esporte ou simplesmente assistir às exibições”, conta o engenheiro Mauro Bonelli.

Completa o conjunto uma série de outros edifícios e quadras esportivas para futebol, vôlei e basquete. Com todos esses atributos, o Parque Madureira também ganhou a certificação ambiental Acqua, da Fundação Vanzolini em parceria com a Escola Politécnica da USP e Centre Scientifique et Technique du Bâtiment (CSTB). Para isso, todos os fornecedores, do projeto à produção dos materiais e sistemas utilizados, tiveram de atender a uma série de exigências ambientais.

Expansão
Uma segunda etapa da obra foi projetada pela equipe do RRA Arquitetos, com mais dois quilômetros de parque linear, até as estações Rocha Miranda e Honório Gurgel, o que fará do conjunto o maior parque do Rio de Janeiro, com quase 420 mil metros quadrados.

“Na nova área, queremos que o projeto tenha exatamente a mesma linguagem arquitetônica e paisagística”, diz Bonelli, mas com base na experiência, a Prefeitura planeja alguns ajustes na distribuição das quadras esportivas e também na arborização, que agora terá mudas de maior porte, que possam dar sombra desde a inauguração da obra. O projeto prevê um horto, com uma escola de jardinagem, anfiteatros, nova pista de skate e também outros circuitos de águas, com cascatas.

Ficha Técnica - Parque Madureira Rio+20
Localização: Rua Parque Madureira, rua Soares Caldeira e av. dos Italianos, Madureira, Rio de Janeiro.
Iniciativa: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Coordenação: Eng. Mauro Bonelli.
Arquitetura, urbanismo e paisagismo: RRA (Arquiteto responsável: Ruy Rezende; Equipe: André Costa, Bárbara Rezende, Fátima Duarte, Filipe Merem, Guilherme Gorini, Gustano Andrade, Heloísa Normando, Mariana Magalhães e Pedro Conde).
Projeto Skate Park: Rio Ramp Design.
Programação Visual: Soter Design.
Projetos de hidráulica: ACB Engenharia.
Projetos de elétrica: Overload Service.
Projetos de ar-condicionado: Ambient Air.
Luminotécnica: Schréder (áreas externas); RRA (edificações).
Consultoria de sustentabilidade: Sustentech.
Construtora: Delta Construção.
Área total: 108.870,32 m².
Área do parque: 93.553 m².
Área de expansão: Aprox. 310.000 m².
Área construída total em julho de 2016: 328.000 m².
Custo: R$ 83 milhões (2010).
Custo projetado da expansão: R$ 270 milhões.
Ano do projeto: 2010.
Conclusão da obra: 2012 (1ª fase) – 2016 (previsão 2ª fase).