Por Elzio Mistrelo*
Circula nos bastidores da economia brasileira a narrativa cômoda de que o setor de infraestrutura está em plena ebulição e que o mercado simplesmente “não dá conta” da demanda. Trata-se de uma visão parcial. O déficit de profissionais é, sim, uma realidade incontestável, alimentado pela baixa atratividade dos cursos nas universidades, pelos salários achatados e pela desvalorização crônica da carreira. No entanto, o problema central vai muito além: o que realmente dita o ritmo atual é uma corrida predatória rumo ao fundo do poço, onde o mercado está perigosamente nivelado por baixo.
Nessa dinâmica, as engenharias de ponta, aquelas que prezam pelo planejamento rigoroso, pela excelência técnica de seus quadros e por programas rígidos de compliance e integridade, estão perdendo espaço comercial para estruturas que ignoram esses pilares. Concessionárias públicas, privadas e, de forma preocupante, as próprias agências reguladoras têm negligenciado a qualificação das prestadoras de serviços em nome de uma suposta economia imediata. O resultado é a proliferação de estudos e projetos de engenharia rasos, incapazes de antecipar cenários e que se transformam em verdadeiras bombas-relógio nos canteiros de obras.
A Ilusão da Economia na Origem: O Impacto em CAPEX e OPEX
Existe um equívoco econômico-financeiro crasso na raiz dessas contratações predatórias. Gastar mais com uma consultoria de engenharia de alto padrão representa uma fração minúscula, frequentemente inferior a 1% ou 2%, do custo total de um empreendimento de infraestrutura. No entanto, economizar nessa etapa custa caro à frente.
Um projeto robusto, desenhado com inteligência e planejamento, gera economias exponenciais e muito superiores ao seu próprio custo na fase de construção (CAPEX), evitando aditivos contratuais bilionários, paralisações e desperdício de materiais. Da mesma forma, propostas tecnicamente superiores impactam diretamente a fase de operação (OPEX), garantindo ativos mais eficientes, com menor índice de falhas, manutenções preditivas facilitadas e menor consumo energético ao longo de todo o ciclo de vida da infraestrutura. O “barato” na fase de projeto é, invariavelmente, o gerador do caos financeiro na implantação e na operação.
Os Dados por Trás da Degradação Setorial
Apagão de Talentos nas Universidades: Estatísticas educacionais e do sistema profissional indicam uma queda acentuada de cerca de 30% nas matrículas gerais de engenharia, com um recuo drástico de 52% especificamente na Engenharia Civil. A precarização dos honorários e a falta de perspectiva profissional afastam os jovens talentos das carreiras tecnológicas.
A Raiz das Obras Paralisadas: Auditorias recorrentes do Tribunal de Contas da União (TCU) apontam que a esmagadora maioria das paralisações e aditivos contratuais bilionários em grandes obras têm origem direta na deficiência de projetos básicos e executivos.
Concorrência Desleal e Quebra de Integridade: Empresas estruturadas, que investem em compliance, novas tecnologias, como modelagem BIM e inserção da Inteligência Artificial, segurança e capacitação contínua, perdem espaço comercial para estruturas precárias e sem governança, incapazes de entregar a profundidade técnica exigida por projetos complexos de saneamento, recursos hídricos e mobilidade.
Os Caminhos para a Retomada
Para estancar esse processo de erosão institucional e técnica, o mercado corporativo e regulatório precisa adotar medidas corretivas imediatas:
Soberania do Critério de Técnica e Preço: Órgãos contratantes devem abandonar o vício do menor preço em licitações de inteligência e engenharia, garantindo peso dominante à qualificação técnica, aos atestados de capacidade operacional e aos critérios de integridade.
Atuação Rigorosa das Agências Reguladoras: Setores essenciais, como o saneamento básico, exigem que as agências de regulação estabeleçam padrões mínimos de maturidade projetual e compliance, coibindo práticas de dumping que comprometem a segurança dos ativos.
Remuneração Justa da Consultoria: Reconhecer o valor intelectual do projeto é a única alavanca capaz de viabilizar políticas salariais atrativas, estancar a evasão universitária e resgatar a competitividade técnica do país.
No fim da cadeia, a conta é paga pela sociedade. Obras atrasadas por falhas grotescas de projeto, acidentes operacionais evitáveis e ineficiências sistêmicas são os frutos amargos dessa cultura. A engenharia consultiva brasileira exige maturidade e responsabilidade para voltar a ser o motor do desenvolvimento nacional.

*Elzio Mistrelo é engenheiro civil, diretor de Saneamento, Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Setec Hidrobrasileira, vice-presidente de Engenharia do Sinaenco/SP e diretor da APECS (Associação Profissional das Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente).